Consumo das famílias no 1º semestre de 2026: o que os dados da Abras e do crédito revelam sobre o comportamento do orçamento
Julia Fonseca
Por que ler os dados de consumo com olhar de planejamento
Entender como o consumo das famílias se comporta ao longo de um semestre ajuda a interpretar o ambiente em que o orçamento doméstico opera. Não se trata de prever o futuro, mas de compreender mecanismos: preços, crédito, juros e renda interagem e moldam as decisões de gasto. Este artigo organiza, de forma didática, os números mais recentes disponíveis.
O consumo das famílias no primeiro semestre
O consumo das famílias brasileiras encerrou o primeiro semestre de 2026 com alta acumulada de 2,49%, segundo levantamento da Abras (Associação Brasileira de Supermercados). Em junho, o indicador avançou 0,48% em relação a maio e 1,86% na comparação com o mesmo mês do ano passado, já descontada a inflação pelo IPCA.
Segundo a Abras, esse resultado reflete a combinação entre um mercado de trabalho ainda aquecido, a circulação de recursos na economia e um consumidor mais cauteloso diante da pressão sobre parte dos alimentos. Na leitura da entidade, o período aponta para um comportamento mais planejado, com maior atenção às promoções, comparação de preços e seletividade na composição da cesta.
Esse é um ponto relevante para quem organiza o orçamento familiar: o mecanismo de "comportamento mais planejado" descrito pela Abras nada mais é do que a resposta do consumidor a preços e renda disponível. Comparar preços e priorizar itens dentro da cesta são reações naturais quando parte dos alimentos pressiona o bolso.
Preços da cesta: acomodação pontual, pressão acumulada
No campo dos preços, o Abrasmercado — indicador que acompanha uma cesta de 35 produtos de largo consumo — recuou 0,28% em junho ante maio, interrompendo três meses consecutivos de alta. Ainda assim, o indicador acumulou elevação de 6,52% no primeiro semestre, e o valor médio da cesta passou de R$ 854,91 para R$ 852,54 em junho.
Já a cesta de 12 produtos básicos subiu 0,08% na passagem de maio para junho, praticamente estável, encerrando o mês com valor médio de R$ 357,39. No acumulado do primeiro semestre, a alta foi de 4,99%, novamente puxada pelo feijão e pelo leite longa vida.
A distinção entre variação mensal e acumulado semestral é conceitualmente importante. Uma queda pontual em um mês não elimina o efeito de altas ocorridas nos meses anteriores — o custo médio da cesta continua carregando a pressão acumulada.
O crédito como mecanismo de financiamento do consumo
Quando a renda corrente não acompanha os preços, o crédito costuma entrar na equação. Os dados do Banco Central mostram o dimensionamento desse mercado. As concessões de crédito livre aumentaram 6,7% em junho, na comparação com maio, para R$ 668,4 bilhões, e no acumulado de 12 meses a alta é de 9,3%.
Entre as pessoas físicas, as concessões cresceram 1,4% em junho, para R$ 338,4 bilhões, com avanço de 10,2% no acumulado de 12 meses.
O custo desse crédito, porém, é elevado. A taxa média de juros no crédito livre subiu de 49,3% em maio para 49,8% em junho, sendo que em junho de 2025 a taxa era de 46,1%. Para pessoas físicas, o juro médio do crédito livre subiu de 62,8% para 64,0%.
Esses números explicam, do ponto de vista técnico, por que o custo de antecipar consumo via crédito pode ser significativo. Quanto maior a taxa cobrada, maior a parcela da renda futura comprometida com juros.
Endividamento e comprometimento de renda
Dois indicadores ajudam a medir o peso das dívidas no orçamento das famílias. O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro caiu para 49,8% em maio, depois de permanecer no pico da série em abril e março, em 49,9%.
O comprometimento de renda das famílias com o Sistema Financeiro Nacional subiu de 28,4% para 28,5%. Enquanto o endividamento mede o estoque de dívida em relação à renda acumulada, o comprometimento mede quanto da renda mensal é destinado ao pagamento das obrigações — dois ângulos complementares do mesmo fenômeno.
No campo da inadimplência, a taxa nas operações de crédito livre permaneceu em 6,2% em junho, o mesmo nível de maio.
Os indicadores macroeconômicos que emolduram o cenário
Alguns indicadores ajudam a interpretar o custo do dinheiro e a erosão do poder de compra. A taxa Selic estava em 14,25% ao ano, observada em 5 de agosto de 2026.
O CDI, referência usada em muitas aplicações de renda fixa, estava em 14,15% ao ano, observado em 29 de julho de 2026.
Do lado dos preços, o IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,64%, observado em 1º de junho de 2026. No mês, o IPCA registrou 0,16%, também observado em 1º de junho de 2026.
Outros indicadores compõem o quadro: o IGP-M teve variação mensal de -1,16%, observada em 1º de julho de 2026. O dólar PTAX estava em 5,0739 BRL/USD, observado em 30 de julho de 2026. A taxa de desemprego pela PNAD estava em 6,1%, no dado observado em 1º de janeiro de 2026.
Como esses mecanismos conversam entre si
Juntando as peças, é possível descrever um encadeamento: preços que acumulam alta ao longo do semestre pressionam a cesta de consumo; parte das famílias recorre ao crédito, cujo custo é elevado; e o comprometimento de renda com dívidas reflete esse movimento. Simultaneamente, a inflação em 12 meses e as taxas de juros de referência funcionam como parâmetros para avaliar tanto o custo do dinheiro quanto a perda de poder de compra ao longo do tempo.
Para quem faz planejamento financeiro, o valor desses dados está em fornecer contexto — não em servir de gatilho para decisões apressadas. Compreender a diferença entre variação mensal e acumulada, entre concessão e estoque de crédito, e entre endividamento e comprometimento de renda é parte do letramento financeiro que sustenta escolhas mais conscientes.
Conclusão
Os números do primeiro semestre de 2026 desenham um consumidor descrito pela Abras como mais planejado e atento a preços, dentro de um ambiente de juros elevados e inflação em determinado patamar. Ler esses indicadores de forma integrada — e sempre com atenção às datas de observação de cada dado — é um exercício técnico que favorece o entendimento do próprio orçamento.