Juros altos e endividamento das famílias: o mecanismo por trás da pressão sobre o varejo

Julia Fonseca perfil do autor

Por que o varejo virou termômetro do bolso das famílias

Quando o assunto é planejamento financeiro doméstico, poucos setores funcionam como termômetro tão direto do humor do consumo quanto o varejo. Uma sequência de resultados divulgados por varejistas indicou que a desaceleração do consumo e o aumento do endividamento das famílias castigam o setor mais do que o esperado. Neste artigo, o objetivo é explicar o mecanismo — como taxa de juros, crédito e endividamento se conectam — e não sugerir qualquer ação de compra ou venda.

O elo entre a taxa básica e o custo do crédito

O ponto de partida é a taxa básica de juros. O Copom reduziu a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano, e a leitura mais recente da série do Banco Central aponta a Selic em 14% ao ano (observada em 16/09/2026). O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que, apesar de ser um passo importante para melhorar as condições de crédito, seus efeitos não são imediatos.

Paralelamente, o CDI — referência para boa parte das operações de crédito e de aplicações — foi observado em 13,9% ao ano em 06/08/2026. Esse patamar de juros ajuda a entender por que o custo do crédito segue elevado mesmo após o corte da taxa básica.

No início do ano, o mercado esperava que a Selic recuasse para a faixa de 12%. Agora, a expectativa é de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa, levando-a para 13,75%. Ou seja: a trajetória de queda ficou mais lenta do que se projetava, o que prolonga o período de crédito caro.

Como o endividamento limita o consumo

O segundo componente do mecanismo é o endividamento. Segundo pesquisa divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, o maior patamar da série histórica; em junho, o índice era de 81,6%.

Mais relevante para o planejamento do orçamento é a intensidade desse endividamento: em média, 29,5% do orçamento das famílias está comprometido com dívidas, enquanto o tempo médio de comprometimento é de 7,2 meses. Em nota, a CNC ressalta que o endividamento não é necessariamente negativo porque o crédito também impulsiona o consumo. No entanto, alerta que o indicador passa a ser preocupante quando as famílias têm dificuldade para honrar os pagamentos.

O efeito prático é direto: o alto endividamento das famílias limita o consumo e afeta principalmente a compra de bens de maior valor. É o tipo de gasto que costuma depender de crédito parcelado — e que, portanto, fica mais sensível ao custo do dinheiro.

O que os balanços das varejistas revelam sobre o ciclo

Os resultados corporativos ilustram como esse ambiente chega ao caixa das empresas. O Magazine Luiza registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes. Segundo o diretor financeiro Roberto Belissimo, o resultado foi "muito influenciado neste trimestre pela taxa de juros, muito alta, e pelo impacto nas nossas despesas financeiras".

Na moda, a Renner reduziu a expectativa de crescimento da receita líquida para 2026 de uma faixa entre 9% e 13% para um intervalo de 4% a 8%; no trimestre, registrou lucro líquido de R$ 405 milhões, valor estável em relação ao mesmo período de 2025. O CEO Fábio Faccio afirmou que "a queda da taxa de juros está mais lenta e com menor impacto do que projetávamos" e que o endividamento das famílias seguiu trajetória diferente da esperada, com aumento em vez de estabilidade ou queda.

A C&A registrou lucro líquido ajustado de R$ 130,1 milhões no segundo trimestre, alta de 4,3% em relação ao mesmo período do ano passado, com Ebitda ajustado de R$ 435,9 milhões, queda de 0,6% e abaixo da expectativa média de analistas consultados pela LSEG, que projetavam R$ 441,4 milhões. A venda de vestuário totalizou R$ 1,9 bilhão, alta de 5,6% em relação ao segundo trimestre de 2025.

Já no varejo alimentar, o Assaí anunciou lucro líquido de R$ 484 milhões no segundo trimestre, alta de 121% em relação ao mesmo período do ano passado, embora tenha citado a inflação dos alimentos e o endividamento como fatores que continuaram afetando o consumo.

O estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle, resume: "O varejo talvez seja o setor mais penalizado pelo nível elevado dos juros, que permaneceram altos por muito tempo. As famílias continuam bastante endividadas e a concorrência no setor é intensa."

Consumo do setor: fôlego menor ao longo do ano

Os dados oficiais confirmam a perda de ritmo. Até maio, dado mais recente da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE, o volume de vendas do varejo acumulava alta de 1,7%; até março, o crescimento acumulado era de 2,4%. No acumulado do ano, o comércio de móveis pesa sobre o indicador, com queda de 3,7% nas vendas. O ambiente também contribuiu para o pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, dono da Mobly e da Tok & Stok, no início do ano, e o Pão de Açúcar está renegociando suas dívidas com credores financeiros.

O pano de fundo macroeconômico

Para contextualizar o cenário no qual as famílias tomam decisões de consumo e de crédito, vale observar alguns indicadores recentes. O IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,64% (observado em junho de 2026), enquanto o IPCA do mês ficou em 0,16% (junho de 2026). O IGP-M teve variação mensal de -1,16% (julho de 2026). No câmbio, o dólar PTAX foi observado em R$ 5,0908 por dólar em 07/08/2026. Já a taxa de desemprego pela PNAD foi de 6,1% (dado observado em janeiro de 2026, possivelmente defasado).

Em perspectiva anual, a inflação ao consumidor no Brasil foi de 5,02% (referente a 2025, segundo o World Bank) e o crescimento do PIB foi de 2,29% (2025).

O que esse mecanismo ensina sobre o orçamento familiar

O encadeamento é o que interessa ao planejamento financeiro: juros elevados por período prolongado elevam o custo do crédito; o crédito caro, somado ao alto comprometimento da renda, reduz o espaço para consumo — sobretudo de bens de maior valor; e essa retração aparece nos balanços das varejistas e nos índices de vendas. A CNC lembra que o endividamento em si não é negativo, mas se torna preocupante quando compromete a capacidade de pagamento.

Para famílias de alta renda, entender esse mecanismo ajuda a ler os sinais do ciclo econômico — comprometimento médio de renda, patamar de juros e ritmo do consumo — sem confundir movimento de mercado com recomendação. Este texto é educativo e não constitui indicação de qualquer produto, ativo ou decisão financeira.