Carry trade: o mecanismo por trás da disputa entre real e peso colombiano

Julia Fonseca perfil do autor

O que é carry trade

O carry trade é uma operação em que investidores tomam empréstimos em moedas de juros baixos para investir em ativos com rendimentos mais elevados [S1]. A lógica central é aproveitar a diferença entre as taxas de juros de dois países — o chamado diferencial de taxas — para capturar retorno. Quando esse diferencial é amplo e o cenário macroeconômico é considerado favorável, a demanda por determinada moeda tende a aumentar.

Em 2026, essa dinâmica ganhou destaque no noticiário de mercados emergentes. O peso colombiano segue como a moeda de melhor desempenho entre os mercados emergentes, à medida que investidores mantêm o foco no elevado retorno proporcionado pelo carry trade [S1].

Como o diferencial de juros alimenta a operação

O combustível do carry trade é a expectativa de juros. Segundo Jose Prieto Jaramillo, executivo do BTG Pactual em Bogotá, mesmo após a decisão do banco central colombiano de manter os juros, "o mercado continua esperando inflação elevada e, com isso, uma trajetória de aperto monetário, o que sustenta a moeda" [S1]. Ou seja, a perspectiva de juros altos por mais tempo reforça o atrativo da moeda para esse tipo de estratégia.

Esse mecanismo tem um efeito curioso sobre a política monetária. A ata da última reunião do banco central colombiano mostrou que membros da diretoria avaliam que novos aumentos de juros ampliariam o diferencial de taxas em relação a outros países, alimentando ainda mais o carry trade e fortalecendo o peso [S1]. Em outras palavras, subir juros para conter a inflação pode acabar atraindo ainda mais capital para a moeda.

O caso colombiano em números

O retorno obtido com aplicações em peso colombiano se aproxima de 20% em 2026, tornando a moeda a de melhor desempenho do mundo [S1]. No acumulado do ano, a divisa subia 19%, quase o triplo da valorização de qualquer outra divisa emergente [S1].

As autoridades locais tentaram conter esse movimento. Na sexta-feira anterior à reportagem, após o fechamento dos mercados, o banco central colombiano surpreendeu ao interromper a sequência de altas de juros e anunciou um programa para acumular até US$ 4 bilhões em reservas internacionais [S1]. Inicialmente as medidas surtiram efeito, e na segunda-feira o peso registrou sua maior queda diária desde maio, mas o movimento perdeu força rapidamente [S1]. Até quinta-feira, a moeda já havia recuperado quase todas as perdas [S1].

O banco central pretende ampliar as reservas internacionais por meio de leilões mensais de opções de venda, e a estratégia começou com uma oferta para comprar US$ 400 milhões, absorvida rapidamente pelo mercado [S1]. Segundo Prieto, os resultados tendem a aparecer apenas ao longo do tempo, à medida que a autoridade monetária acumular um volume maior de reservas [S1].

O cenário político também aparece como fator. O presidente eleito Abelardo de la Espriella prometeu reduzir o déficit fiscal e controlar o aumento da dívida pública da Colômbia, reforçando a confiança dos investidores nos ativos locais [S1]. Além disso, o banco central elevou a projeção de inflação para 2026 de 6,4% para 6,9% [S1].

Por que o real entra nessa conversa

O Brasil também é tradicionalmente citado como destino de carry trade por conta de seus juros. De acordo com Ning Sun, estrategista sênior para mercados emergentes da State Street, "o Brasil está perdendo parte do brilho como a principal moeda de carry trade da região" [S1]. Segundo ela, com o aumento dos riscos políticos, investidores que buscam operações de carry precisam encontrar outra alternativa para substituir posições compradas no real [S1].

Para entender o contexto brasileiro, vale observar os indicadores de referência. A taxa Selic foi observada em 14% ao ano em 16 de setembro de 2026 [S10], enquanto o CDI foi registrado em 14,15% ao ano em 5 de agosto de 2026 [S4]. Esses patamares de juros ajudam a explicar por que a moeda brasileira historicamente figura em estratégias baseadas em diferencial de taxas.

Câmbio e o vaivém do fluxo

O câmbio reflete diretamente esses fluxos de capital. O dólar PTAX foi observado em R$ 5,1017 em 6 de agosto de 2026 [S6]. Na sessão daquele dia, o dólar à vista exibia desvalorização frente ao real, mesmo com a moeda americana mais forte nos principais mercados [S3].

A reportagem descreve que o real poderia estar passando por uma correção da cautela pré-Copom e também se beneficiando da alta do petróleo naquela sessão [S3]. Perto das 13h30, o dólar à vista era negociado em queda de 0,41%, cotado a R$ 5,1070 [S3]. Há também relatos de melhora na taxa do dólar casado, um termômetro importante sobre a entrada de fluxo no país: quando a taxa recua, é sinal de que capital externo pode estar entrando [S3].

O ambiente externo pesa nessa equação. A perspectiva de que o Federal Reserve pode adotar um tom mais "hawkish" fez com que os rendimentos dos Treasuries passassem a subir, dando apoio à apreciação generalizada do dólar, com o índice DXY voltando a operar acima de 100 pontos [S3]. Esse é um ponto essencial do mecanismo: quando os juros nas economias desenvolvidas sobem, o diferencial que sustenta o carry trade tende a se estreitar.

O papel da inflação e do cenário doméstico

A inflação é uma variável-chave para a política de juros e, por consequência, para o carry trade. No Brasil, o IPCA acumulado em 12 meses foi observado em 4,64% em junho de 2026 [S8], com variação mensal de 0,16% no mesmo período [S9]. Já o IGP-M registrou -1,16% no mês de julho de 2026 [S7].

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não há "má vontade" do mercado financeiro em relação às expectativas futuras de taxas de juros e que o ambiente internacional incerto e a política monetária restritiva no mundo estabelecem desafios repassados para os preços [S2]. Segundo ele, a inflação está sob controle e abaixo de 5%, "muito próxima" ao teto da meta [S2].

Riscos embutidos no mecanismo

O carry trade não é uma operação sem riscos. Como o retorno depende tanto do diferencial de juros quanto do comportamento do câmbio, movimentos bruscos das moedas podem reverter ganhos rapidamente — foi o que se viu no episódio em que o peso caiu 2,4% na segunda-feira e depois recuperou parte das perdas [S1]. Decisões de bancos centrais, choques externos e mudanças no apetite por risco alteram o cenário de um dia para o outro.

O caso colombiano ilustra bem a complexidade: mesmo com intervenções da autoridade monetária, o peso colombiano continua sendo uma das poucas moedas de alto rendimento que combinam retorno elevado com um cenário macroeconômico favorável, na descrição da reportagem [S1]. Entender esse mecanismo ajuda o investidor a interpretar movimentos de câmbio e fluxos internacionais — sem que isso represente qualquer indicação sobre o que fazer com o próprio patrimônio.