Endividamento da baixa renda em recorde: como o mecanismo do crédito emergencial se conecta aos juros
Euller Santana perfil do autor
Um recorde que pede explicação de mecanismo
O endividamento das famílias de baixa renda bateu recorde em julho, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Em recorte exclusivo divulgado ao Valor, a parcela de famílias endividadas com renda mensal de até três salários mínimos (R$ 4.863) ficou em 84,9% no mês passado, a maior proporção para essa faixa de renda, cuja série teve início em maio de 2023.
Para quem acompanha o mercado de capitais e as finanças pessoais, entender esse dado não significa emitir julgamento sobre condutas individuais, mas compreender o mecanismo econômico que o produz. É esse o objetivo deste texto: destrinchar como um indicador de endividamento é medido, como se conecta ao custo do crédito e por que a inadimplência tende a acompanhar o movimento.
O que a Peic mede e como o recorte é feito
Antes de interpretar qualquer número, vale entender a metodologia. A amostra da Peic abrange entrevistas em todas as capitais e no Distrito Federal e, mensalmente, conta com aproximadamente 18 mil consumidores, ou 17,8 mil famílias. Desse universo, em torno de 43% têm renda mensal de até três salários mínimos.
O recorde de julho na baixa renda não foi um evento isolado. Fábio Bentes, economista-chefe da CNC e responsável pelo recorte, destaca que foi a quarta vez consecutiva que o endividamento da baixa renda bateu recorde. O número também ficou acima da fatia média de endividados em julho, considerando todas as faixas de renda, que ficou em 82% — igualmente um recorde.
Endividamento e inadimplência: por que são coisas diferentes
Um ponto didático importante é separar dois conceitos que costumam ser confundidos. Estar endividado significa ter compromissos financeiros em aberto — o que, por si só, não indica problema. A inadimplência, por sua vez, ocorre quando esses compromissos entram em atraso.
No recorte da Peic, os dois indicadores pioraram em conjunto. A fatia das famílias endividadas com renda até três salários mínimos e que admitiram débitos em atraso subiu de 38,3% para 38,5% de junho para julho. Já a proporção de inadimplentes sem condição de quitar dívidas subiu de 17,6% para 17,8%, no mesmo período e na mesma faixa de renda.
Há ainda um terceiro indicador relevante para entender o mecanismo: o comprometimento de renda. A fatia mensal de renda comprometida com dívidas, nessa faixa, subiu de 30,4% para 30,6% de junho para julho. Quanto maior essa fração, menor a folga do orçamento para absorver imprevistos.
O "puxadinho" do orçamento e a lógica do crédito emergencial
O resultado, segundo Bentes, evidencia que muitas famílias de baixa renda ainda usam crédito para quitar contas do mês. "É como se o crédito fosse um puxadinho do orçamento", disse. Ele também aponta que houve bancarização expressiva no pós-pandemia, o que facilitou o acesso ao crédito nessa faixa de renda.
É aqui que entra o conceito de crédito emergencial, central para compreender o mecanismo. Isabela Tavares, economista sênior da Tendências Consultoria, explica que os de menor renda têm escore de crédito baixo e normalmente não estão aptos a créditos com juros baixos, como o consignado. Assim, essa faixa recorre a modalidades como cartão de crédito e cheque especial.
"Esse crédito emergencial com juros mais altos acaba se tornando uma bola de neve. Porque precisam desse dinheiro para conseguir pagar contas", diz Tavares. "Só que não é um dinheiro a mais: no fim do mês, precisa pagar, e aí eles parcelam dívidas no rotativo e não conseguem pagar." O mecanismo, portanto, é circular: quanto maior o juro da modalidade acessada, mais rápido a dívida cresce em relação à renda disponível.
A conexão com a taxa de juros
Um motivo para o crédito caro é o atual patamar de juros elevado no mercado, acrescenta Tavares, principalmente nos chamados "créditos emergenciais". No plano macroeconômico, a taxa básica de juros — a Selic — estava em 14% ao ano na leitura de 16 de setembro de 2026. O próprio artigo do Valor menciona a Selic "atualmente em 14% ao ano".
A taxa básica funciona como referência para o custo do dinheiro na economia. Indicadores de renda fixa acompanham esse patamar: o CDI, taxa de referência para diversas aplicações, estava em 13,9% ao ano na observação de 6 de agosto de 2026. Já a inflação medida pelo IPCA acumulava 4,64% em 12 meses na leitura de junho de 2026, com variação mensal de 0,16% no mesmo mês.
É útil notar como Leandro Vilain, CEO da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), descreve a relação entre juros e inadimplência: "Taxas altas geram maior inadimplência, mais perda, maior dificuldade do cliente em repagar as dívidas", afirma. A frase sintetiza o mecanismo — juros mais altos elevam o custo de rolagem da dívida e pressionam a capacidade de pagamento.
Estresse financeiro e consumo
A CNC não foi a única instituição a sinalizar preocupação com as finanças da baixa renda. A Fundação Getulio Vargas (FGV) calcula o "Indicador de Estresse Financeiro" com base em tópicos da Sondagem do Consumidor. De junho para julho, entre famílias da faixa 1, com renda familiar mensal de até R$ 2.100, o indicador subiu de 25,6 pontos para 26,8 pontos — o maior nível desde março de 2026 (29,1 pontos).
Esse estresse afetou o ritmo de consumo, segundo Anna Carolina Gouveia, economista da FGV. Ela informa que, somente na faixa 1, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 10,5 pontos, para 79,8 pontos — a menor pontuação desde setembro de 2025 (77,4 pontos). "A faixa de renda mais baixa, que é quem tem menos flexibilidade no orçamento, acaba sendo muito influenciada", diz.
Renegociação, portabilidade e educação financeira
O cenário abre discussão sobre instrumentos de tratamento do endividamento. Ao ser questionado sobre o Desenrola 2.0, programa federal de renegociação de dívidas, Bentes explica que a renegociação não impede famílias de tomarem novos créditos, e que a dívida renegociada — mesmo com condições melhores — ainda contabiliza a família como endividada na pesquisa. Ele ressalta que é preciso esperar mais por efeitos do programa, já que a nova edição foi lançada há apenas 90 dias.
Tavares recomenda mais mecanismos de portabilidade de crédito, de forma que o devedor de baixa renda possa escolher a instituição financeira com menor juro. Como recomendação de longo prazo, ela aponta o fortalecimento da educação financeira nessa faixa de renda. O especialista em Educação Financeira Rodrigo Costa observa que, segundo pesquisas da Serasa Experian, entre os mais pobres os adultos na faixa de 41 e 60 anos são os mais endividados — público que teve pouca ou nenhuma educação financeira na escola.
O que o leitor pode extrair, sem receita
Compreender esse mecanismo é diferente de seguir qualquer orientação de conduta financeira. O objetivo aqui é técnico: mostrar como um indicador de endividamento é construído, como o custo do crédito se conecta ao patamar de juros e por que a inadimplência tende a caminhar junto. Cada situação orçamentária é particular, e a leitura de indicadores serve para contextualizar decisões — não para prescrever ações.