Curtailment e conta de luz: o mecanismo do excesso de geração de energia e o impacto no caixa das PMEs

Euller Santana perfil do autor

O paradoxo do sistema elétrico: excesso de oferta e conta cara

Para quem administra uma pequena ou média empresa, a energia elétrica é uma linha de custo fixo que raramente sai do radar. Por isso, vale entender um fenômeno técnico que parece contraintuitivo: o sistema elétrico brasileiro passou a enfrentar risco por excesso de geração de energia, e não por escassez.

Segundo o G1 Economia, a ameaça que ronda o Sistema Interligado Nacional (SIN) é a oferta excessiva de energia. Para evitar uma possível sobrecarga, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou no dia 7 de junho um plano emergencial para frear o ingresso de eletricidade na rede.

Na prática, essa medida tem nome técnico. Trata-se da redução ou do desligamento da geração de energia, geralmente de parques eólicos e solares — o que é chamado no jargão técnico de curtailment (expressão que se traduz como corte ou redução).

Por que a oferta precisa ser igual à demanda

O ponto de partida para compreender o mecanismo é uma regra física do sistema. Segundo Joisa Dutra, diretora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ceri), para o sistema elétrico funcionar de forma adequada, a oferta deve ser igual à demanda. Isso significa que a quantidade de energia gerada e transmitida tem de coincidir com a consumida.

Quando esse equilíbrio se rompe por excesso de geração, o operador precisa cortar oferta. Foi a primeira vez que o ONS lançou mão da medida desde que um plano para lidar com o excesso de oferta de energia foi aprovado, em novembro do ano passado.

O acionamento não foi aleatório. De acordo com o órgão, foi necessário naquele domingo de junho para equilibrar a alta geração, combinada a um consumo menor, devido ao final de semana prolongado pelo feriado de Corpus Christi, associado a baixas temperaturas. Além disso, cortes também foram realizados em dias de jogos do Brasil na Copa.

Esse detalhe é relevante para quem faz gestão financeira: dias de menor atividade econômica e circulação de pessoas reduzem o consumo. Com menor atividade econômica e circulação de pessoas nesses dias, o consumo de energia é reduzido, desequilibrando a balança em favor da oferta.

A geração distribuída e o descontrole do operador

Um elemento novo mudou a estrutura do sistema: a chamada geração distribuída, ou 'energia de telhado'. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), dos cerca de 90 milhões de consumidores, 4,5 milhões (5% do total) são também micro e minigeradores de energia por meio de painéis solares.

Esse universo é diverso. Desses 4,5 milhões, 3,6 milhões são consumidores-geradores residenciais, e 400 mil, comerciais, que recebem créditos pelos quilowatts aportados ao conjunto.

O volume envolvido é expressivo. A potência instalada desses consumidores-geradores é de 50 gigawatts, que equivalem a cerca de 20% da potência total instalada do país, observa Joisa. E há indícios de que o número real seja maior: segundo a pesquisadora, a subnotificação da geração distribuída poderia chegar a 15 gigawatts ou 30% do total.

O problema operacional é de comando. Enquanto usinas convencionais e renováveis de grande porte são controladas pelo ONS, a geração distribuída não obedece a nenhum comando centralizado. Ou seja, o operador não consegue simplesmente 'desligar' esses geradores para equilibrar o sistema.

Excesso de subsídios e capacidade descolada da demanda

A origem estrutural do descompasso, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, está nos incentivos. Para Nivalde Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o fenômeno não é produzido pela infraestrutura deficiente ou pela fiscalização frouxa, mas pelos subsídios oferecidos pelo Estado brasileiro às fontes renováveis.

O resultado aparece nos números de capacidade. Atualmente, a capacidade instalada de geração de energia é mais do que o dobro da demanda média, um cenário que deve persistir nos próximos anos, segundo o Planejamento Anual da Operação Energética 2026-2030 do ONS.

Onde isso atinge o caixa da empresa: a conta de luz

Aqui está o ponto que mais interessa à gestão financeira. Apesar do excesso de oferta, o custo não caiu para o consumidor final. No último ano, a energia elétrica residencial acumula alta de 8,79%, quase o dobro do avanço do índice geral de inflação (em alta de 4,64% no acumulado de 12 meses até junho), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O custo do próprio corte também recai sobre o consumidor. A economista, advogada e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Elena Landau resume: 'Quem paga o curtailment é o consumidor'.

O efeito de longo prazo é ainda mais significativo. Citando um levantamento da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, a economista diz que entre janeiro de 2023 e maio de 2026 o governo federal e o Congresso aprovaram medidas que adicionarão quase R$ 985 bilhões às contas de luz até 2050.

Para o gestor de PME, o mecanismo revela algo importante sobre planejamento de custos: a tarifa de energia carrega componentes regulatórios e de subsídio que não seguem necessariamente a lógica de oferta e demanda de mercado. Isso ajuda a explicar por que um cenário de sobreoferta não se traduz automaticamente em conta mais barata.

O que se discute como saída técnica

O debate técnico aponta caminhos de médio prazo. Num futuro próximo, o Brasil prepara-se para investir em sistemas de armazenamento químico, por meio de baterias, e em hidrelétricas reversíveis (aquelas capazes de armazenar energia excedente, bombeando água de um reservatório inferior para um superior). Os dois recursos permitem a conservação da energia renovável gerada, sem o desperdício inerente ao curtailment.

O armazenamento por baterias também é defendido pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), que afirma que essa tecnologia permite armazenar a energia produzida nos momentos de maior geração para utilização nos horários de maior consumo, reduzindo desperdícios e reduzindo custos para os consumidores.

O contexto macroeconômico do custo do dinheiro

Para dimensionar decisões de investimento em eficiência energética ou infraestrutura própria, o gestor precisa olhar para o custo do capital. Em 16 de setembro de 2026, a taxa Selic estava em 14% ao ano, conforme a série do Banco Central. Já o CDI, referência para muitas aplicações e linhas de crédito, foi observado em 13,9% ao ano em 6 de agosto de 2026.

Do lado dos índices de preços, o IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,64% na leitura de junho de 2026, enquanto o IGP-M registrou -1,16% no dado mensal de julho de 2026. Esses indicadores compõem o pano de fundo de qualquer análise de custo fixo, já que reajustes tarifários e contratos costumam se referenciar em índices de inflação.

Conclusão: um custo fixo com lógica própria

O caso do curtailment mostra que a conta de energia de uma empresa não obedece a uma lógica simples de escassez. Há um descompasso entre a expansão da capacidade instalada, o comportamento da demanda e a estrutura de subsídios e encargos que compõem a tarifa. Compreender esse mecanismo é parte da leitura de risco de qualquer estrutura de custos fixos — não como um convite à ação, mas como base técnica para o planejamento financeiro.