Juros altos e varejo na Bolsa: o mecanismo por trás da desvalorização das ações

Julia Fonseca perfil do autor

Quando o custo do dinheiro muda tudo

Para famílias que acompanham o mercado como parte do planejamento financeiro, poucos episódios ilustram tão bem a relação entre juros e valor de empresas quanto o desempenho recente das varejistas na Bolsa. Segundo a CNN Brasil, ações de grandes empresas do varejo acumulam perdas de até 99,93% desde o início de 2020, em um movimento que contrasta com a trajetória do Ibovespa no mesmo período.

A comparação é ilustrativa. Enquanto o principal índice da Bolsa brasileira avançou 44,2%, de mais de 118 mil pontos em janeiro de 2020 para 171 mil pontos no pregão de sexta-feira (21), o ICON, índice que reúne empresas ligadas ao consumo, recuou 49,4%, de quase 5.500 pontos para 2.753 pontos. Ou seja: o mercado como um todo subiu, mas o segmento de consumo caminhou na direção oposta.

Este artigo tem caráter exclusivamente educativo. O objetivo é explicar o mecanismo econômico por trás desse movimento — não indicar ativos nem sugerir decisões.

O ciclo de juros baixos e a euforia de 2020

Para compreender a queda, é preciso voltar ao ponto de partida. De acordo com a reportagem, em 2020 a Selic chegou a 2% e ajudou a impulsionar o consumo e a tomada de risco na Bolsa. Naquele ambiente, o custo do crédito era baixo, o que estimulava tanto o consumidor a comprar quanto as empresas a se endividarem para crescer.

O economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, explica que o efeito posterior foi especialmente relevante entre companhias que haviam aumentado a alavancagem durante o período de juros baixos. Em outras palavras, muitas empresas tomaram dívida barata para expandir operações.

O especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, Marcos Bassani, aponta que, com a Selic em 2%, o mercado chegou a precificar algumas varejistas como empresas de tecnologia. Ainda segundo a reportagem, o auxílio emergencial, a migração do consumo de serviços para bens duráveis e a entrada de novos investidores pessoas físicas na Bolsa também contribuíram para aquele ambiente de valorização.

A virada: quando os juros sobem

O mecanismo central deste caso está na inversão do ciclo. Nos anos seguintes a 2020, a alta da taxa encareceu o crédito tanto para consumidores quanto para empresas, conforme relata a CNN Brasil. Esse movimento tem um efeito duplo sobre empresas endividadas.

Primeiro, do lado da dívida: Perri afirmou que, quando houve a alta da taxa de juros para 15%, essas empresas começaram a ter um custo de carrego da dívida e um custo de despesas financeiras muito elevado. Quanto maior o juro, mais caro fica rolar e pagar dívidas já contraídas.

Segundo, do lado da receita: segundo Perri, os juros elevados encareceram o custo das dívidas e da operação das empresas ao mesmo tempo em que reduziram a capacidade de consumo das famílias. Bassani também relaciona a queda às mudanças no mercado de crédito e à alta da Selic, que dificultaram o acesso dos consumidores ao crédito, elevaram a inadimplência e pressionaram as margens das empresas, além de encarecer suas dívidas.

Há ainda um terceiro fator, ligado à concorrência. Conforme a reportagem, algumas varejistas enfrentaram aumento da concorrência e perda de espaço em determinados segmentos: no vestuário, Perri cita a entrada de concorrentes estrangeiras; no setor de eletrônicos, aponta a combinação entre juros elevados, custos maiores e queda da demanda.

O tamanho do impacto

Os números registrados pela reportagem mostram a magnitude do movimento. Americanas e Casas Bahia acumulam quedas próximas de 100% desde o início de 2020, enquanto Magazine Luiza e Marisa recuaram mais de 95% no período.

O desdobramento financeiro apareceu em pedidos de reorganização. O Grupo Casas Bahia informou em 16 de agosto que entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, buscando reorganizar as finanças e renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. No mesmo dia, a rede de móveis Marabraz protocolou pedido de recuperação judicial, em processo que envolve cinco empresas do grupo e cerca de R$ 140 milhões em dívidas. Já o GPA (Grupo Pão de Açúcar) firmou acordo com os principais credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial que abrange aproximadamente R$ 4,5 bilhões em obrigações de pagamento sem garantia.

Perri ressalta que os casos não têm a mesma origem: enquanto algumas empresas enfrentaram dificuldades operacionais, outras foram mais afetadas pela alavancagem e pelo custo financeiro.

O que são "penny stocks" e como funciona o grupamento

A deterioração levou algumas ações à condição de "penny stocks", papéis negociados abaixo de R$ 1, segundo a reportagem. O caso mais citado é o da Casas Bahia, que passou de R$ 256,57 no início de 2020 para R$ 0,43 em 21 de agosto de 2026.

Existe um mecanismo formal para essa situação. Bassani explicou que a Bolsa considera a companhia em descumprimento quando o fechamento fica abaixo de R$ 1,00 por 30 pregões consecutivos; a B3 notifica a empresa, que tem prazo não inferior a seis meses para reenquadrar a cotação, na prática fazendo grupamento. É importante entender o limite desse recurso: segundo Bassani, esse mecanismo não altera a situação financeira da companhia, já que não paga dívida e não corrige margem, nem concorrência.

O pano de fundo macroeconômico atual

Para contextualizar, alguns indicadores ajudam a dimensionar o ambiente de juros. A Selic estava em 14% ao ano na observação de 16 de setembro de 2026, e o CDI marcava 13,9% ao ano em 20 de agosto de 2026. No campo da inflação, o IPCA acumulado em 12 meses era de 4,44% na leitura de 1º de julho de 2026.

Bassani afirma que o ambiente atual dificulta uma repetição do ciclo de valorização observado durante a pandemia: com juros reais elevados, consumo normalizado e maior atratividade da renda fixa, as condições que impulsionaram as varejistas entre 2020 e 2021 não estão mais presentes.

O que este caso ensina sobre risco

O episódio do varejo é um estudo de caso sobre como o custo do dinheiro conecta-se ao valor das empresas. Alavancagem que parece administrável em um cenário de Selic a 2% pode se tornar um peso quando a taxa sobe. Compreender esse mecanismo — a relação entre juros, dívida, consumo e concorrência — é parte da educação financeira que sustenta decisões conscientes no planejamento de longo prazo.