Materia sobre ETFs como produto de alocação segundo o CEO da XP Asset

ETFs como produto de alocação: o que a fala do CEO da XP Asset ensina

Julia Fonseca

Um debate recente na indústria de fundos colocou os ETFs no centro da conversa sobre montagem de carteira. A discussão sobre os ETFs produto de alocação ganhou destaque quando o CEO da XP Asset, Leandro Bousquet, afirmou que os fundos de índice talvez sejam os melhores produtos para alocação na carteira de um investidor pessoa física, ainda que, na visão dele, a experiência de investir nesses veículos no Brasil não seja a ideal. Neste artigo, a proposta não é dizer o que fazer, mas explicar o mecanismo por trás dessa afirmação e ensinar você a ler o contexto.

A ideia é simples de enunciar e complexa de executar: um ETF (sigla em inglês para fundo de índice negociado em bolsa) reúne uma cesta de ativos e é negociado como se fosse uma ação. O ponto levantado pelos executivos é que, apesar dessa mecânica, muitos investidores ainda enxergam o ETF como um produto de renda variável, e não como uma ferramenta de alocação. Entender essa diferença é o que separa o marketing do conceito.

Por que os ETFs são chamados de produto de alocação

Segundo Leandro Bousquet, CEO da XP Asset, os ETFs são "encarados como um produto de renda variável", quando, na avaliação dele, o ETF é "um produto de alocação, talvez o melhor possível para a carteira de um investidor pessoa física". A distinção importa porque "alocação" remete à decisão de como distribuir o dinheiro entre diferentes classes de ativos, e não apenas à aposta em uma tese específica de bolsa.

O próprio executivo reconheceu uma lacuna: a experiência que o investidor encontra no Brasil, na visão dele, "ainda não é a ideal". Ele avalia que a indústria está no início de um processo de crescimento. Para o leitor, o recado educativo é que "melhor produto de alocação" é uma opinião de mercado sobre a estrutura do veículo, não uma promessa de retorno nem uma orientação para colocar dinheiro em qualquer coisa.

O peso da renda fixa na prateleira de ETFs

Um dado concreto ajuda a entender para onde a indústria tem olhado. Bousquet afirmou que a XP Asset tem 22 ETFs atualmente e deve lançar mais dois ou três nos próximos meses, sendo que boa parte dos novos ETFs lançados foram de renda fixa. Ele mencionou ainda que mais de 60% do crescimento de ativos sob gestão de ETFs veio da renda fixa.

Isso conecta o produto à classe de investimentos predominante entre os brasileiros. Para que o ETF seja, nas palavras do executivo, um produto de ampla alocação, a grade precisa ser completa, o que implica se voltar à renda fixa. Se você quer aprofundar como funcionam os títulos públicos que muitas vezes compõem essas carteiras, vale revisitar o Tesouro Direto: como funciona.

O contexto macro que cerca a renda fixa

A relevância da renda fixa não se explica no vácuo. Ela dialoga diretamente com o patamar de juros da economia. Na observação de 05/08/2026, a taxa Selic estava em 14,25% ao ano, segundo a série 432 do Banco Central. Já o CDI, referência para boa parte da renda fixa pós-fixada, foi observado em 14,15% ao ano em 23/07/2026, conforme a série 4389 do BCB.

Esses números são leituras no tempo, não valores permanentes. O objetivo aqui é apenas mostrar por que uma gestora enxergaria demanda por veículos de renda fixa em um ambiente de juros elevados. Como referência de inflação, o IPCA acumulado em 12 meses foi observado em 4,64% em 01/06/2026, pela série 13522 do BCB. Comparar juros nominais e inflação é um exercício de leitura, e cada investidor precisa entender seu próprio contexto antes de qualquer decisão. Para organizar esse raciocínio, o guia de Investimentos: guia completo reúne conceitos de base.

O que sustenta o crescimento dos ETFs, segundo a BlackRock

O debate não ficou restrito à XP. Bruno Barino, CEO da BlackRock Brasil, apontou fatores adicionais para o que chamou de "crescimento exponencial" dos ETFs. Entre eles, a adoção de modelos de carteiras de ETFs no wealth management e o aumento da remuneração por taxa fixa, o chamado modelo fee based.

Barino também destacou o cenário de transformações no mundo. Para ele, o ETF "virou o veículo de escolha, que conecta a oferta de capital com a demanda de capital". Ele resumiu essa lógica em uma pergunta que, segundo o executivo, aparece depois que uma tese é discutida no mercado: "how do you ETF it?", ou seja, como transformar aquela ideia em um ETF.

O outro lado: quando a tese não se sustenta

Um ETF empacota uma estratégia, mas empacotar não elimina o risco da estratégia. Um exemplo recente ilustra isso. O Índice Trump Trade, da Ned Davis Research, composto por uma dúzia de ETFs que se esperava que se beneficiassem das políticas da Casa Branca, recuou cerca de 16% desde maio, após ter superado o índice S&P 500 no início do ano. Vários dos ETFs que compõem o índice passaram a acumular queda no ano.

Segundo a Ned Davis Research, esse desmonte está ligado, em grande parte, ao conflito dos Estados Unidos com o Irã, que elevou os preços da energia, as expectativas de inflação, as taxas de juros e o valor do dólar americano. A lição educativa é clara: o formato ETF facilita o acesso a uma tese, mas o desempenho continua dependendo dos fundamentos daquela tese. Empacotamento não é blindagem.

Como transformar isso em aprendizado, não em impulso

Para quem pensa a carteira no longo prazo, incluindo objetivos como a aposentadoria e independência financeira, o exercício mais valioso é entender o mecanismo antes de olhar para qualquer produto específico. A fala dos executivos serve como termômetro do que a indústria está construindo, não como instrução de compra.

Conclusão: mecanismo antes do rótulo

A frase de que os ETFs seriam "o melhor produto de alocação" é uma leitura de mercado sobre a estrutura do veículo, feita por quem os oferece. Ela convive com uma autocrítica sobre a experiência do investidor e com exemplos concretos de que teses empacotadas em ETFs também podem perder valor. Entender essa dupla mensagem, o potencial de organização de carteira e o risco intrínseco de cada estratégia, é o tipo de leitura que coloca você no controle da decisão, em vez de reagir a manchetes.