Por que os juros longos brasileiros subiram tanto? O que diz o estudo do BTG Pactual
Euller Santana perfil do autor
O que está por trás das taxas longas
As taxas de juros de longo prazo no Brasil voltaram ao centro do debate econômico. Segundo um relatório recém-publicado pelo BTG Pactual, as causas do elevado nível dos juros nominais de longo prazo no país podem ser resumidas em dois pontos principais: a política fiscal expansionista de 2020 em diante e o avanço dos juros reais dos Estados Unidos na última década. O banco decompõe, nesse estudo, os impactos de diferentes vetores sobre o comportamento das taxas longas.
Para dimensionar o movimento, o estudo destaca que, desde a consolidação da política fiscal de 2017 a 2019, o juro nominal com prazo de dez anos saltou de cerca de 9,9% para 14,5%, um aumento de 4,6 pontos percentuais. Esse tipo de decomposição ajuda a separar o que é fruto de fatores internos daquilo que vem do ambiente externo — uma distinção importante para entender por que as taxas se movem.
O canal externo: juros e petróleo
O ambiente internacional aparece como um dos vetores centrais dessa história. Em pregão recente, os juros futuros encerraram em queda e devolveram parte do forte avanço acumulado na semana anterior, quando os mercados brasileiros passaram por um amplo estresse por conta da saída de capital estrangeiro à medida que se aproximam as eleições presidenciais de outubro. A melhora da renda fixa local, porém, acabou limitada pela pressão sobre as taxas nos Estados Unidos, após o petróleo voltar a superar a marca de US$ 90 por barril.
Para ilustrar como esse movimento se traduz nos contratos negociados, vale observar as taxas do Depósito Interfinanceiro (DI). A taxa do contrato de DI com vencimento em janeiro de 2027 oscilou de 13,775% para 13,77%; a do DI de janeiro de 2028 cedeu de 14,035% para 14,00%; a do DI de janeiro de 2029 recuou de 14,39% para 14,35%; e a do DI de janeiro de 2031 teve baixa de 14,655% para 14,62%. Esses números mostram como os vencimentos mais longos costumam carregar taxas superiores às dos vencimentos mais curtos.
A visão do Banco Central
A leitura oficial adiciona nuances ao debate. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o ciclo de política monetária está mais relacionado com "questões endógenas", ou seja, internas. Segundo ele, há "diversos indicadores" que demonstram um crescimento puxado pela demanda e resultam em pressão inflacionária, e o papel do Banco Central é colocar os juros em patamar contracionista para conseguir reequilibrar oferta e demanda.
Ao mesmo tempo, Galípolo reconheceu que o cenário internacional de juros elevados amplifica os desafios. Ele afirmou que países que antigamente não concorriam tanto por liquidez, como EUA, Alemanha e Japão, passam a desempenhar esse papel de maneira mais clara, o que tende a pressionar. Sobre crédito, ele apontou que houve uma maior utilização de créditos mais caros depois da pandemia de covid-19.
O que dizem as projeções do mercado
As expectativas coletadas pelo Banco Central também ajudam a compor o quadro. De acordo com o relatório Focus, com estimativas coletadas até a última sexta-feira, a mediana das projeções para a inflação oficial brasileira em 2026 se manteve em 5,02%. Para 2027, a mediana das expectativas para o IPCA subiu de 4,22% para 4,24%, e, para 2028, continuou em 3,80%.
No campo da taxa básica de juros, a mediana das estimativas se manteve em 13,75% em 2026. Para 2027, permaneceu em 12%, e, para 2028, seguiu em 10,50%. Já a mediana das projeções para o crescimento da economia brasileira em 2026 continuou em 1,98%; para 2027, recuou de 1,52% para 1,50%; e, para 2028, caiu de 2% para 1,89%. Para o câmbio, a mediana das estimativas para o dólar no fim de 2026 se manteve em R$ 5,20, avançou de R$ 5,28 para R$ 5,29 em 2027 e seguiu em R$ 5,30 em 2028.
Onde estão os indicadores de referência
Para quem acompanha o mercado de renda fixa, alguns indicadores servem de âncora para entender o ambiente. A Selic, taxa básica de juros, foi observada em 14% ao ano em 16 de setembro de 2026. O CDI, referência amplamente usada em produtos de renda fixa, foi observado em 13,9% ao ano em 14 de agosto de 2026.
Do lado da inflação, o IPCA acumulado em 12 meses foi observado em 4,44% em referência a julho de 2026. O câmbio, medido pela PTAX, foi observado em R$ 5,2014 por dólar em 17 de agosto de 2026. Esses dados descrevem observações em datas específicas e não constituem previsão.
Como interpretar tudo isso
O ponto didático central é que as taxas longas não respondem a um único fator. O estudo do BTG Pactual organiza esses vetores em duas grandes frentes — fiscal doméstico e juros reais externos —, enquanto a autoridade monetária enfatiza o peso das questões endógenas no ciclo de política monetária. Já as projeções do Focus mostram a trajetória que os economistas de mercado desenham para inflação, juros, PIB e câmbio nos próximos anos.
Entender o mecanismo ajuda o investidor a ler notícias de forma mais crítica: quando uma taxa de dez anos se desloca, é possível perguntar quanto disso vem de fatores internos e quanto vem do exterior. Este conteúdo tem finalidade estritamente educativa e não representa recomendação de qualquer ativo, produto ou estratégia.