Prêmio de risco na dívida de data centers: como o mercado precifica a corrida da IA

Julia Fonseca

O que está por trás do financiamento da IA

A disputa das gigantes de tecnologia pela liderança em inteligência artificial (IA) mobiliza volumes expressivos de capital. Segundo reportagem do Valor Econômico, os investidores que sustentavam esse movimento começaram a demonstrar menos confiança nas perspectivas do setor. Este artigo tem caráter educativo e busca explicar o mecanismo de precificação de risco por trás dessas operações — sem qualquer recomendação de compra ou venda.

A estrutura das operações: dívida fora do balanço

Um exemplo recente ajuda a ilustrar como esses projetos são financiados. A Meta e a BlackRock anunciaram planos para construir um gigantesco centro de dados no Texas, com a gestora respondendo por 80% do investimento e a Meta pelos 20% restantes, em um projeto estimado em cerca de US$ 14 bilhões.

O ponto técnico relevante é a forma de captação: a BlackRock levantou aproximadamente US$ 12,5 bilhões por meio da emissão de títulos corporativos feita por uma empresa de propósito específico. Estruturas assim permitem que parte da dívida não seja registrada no balanço da empresa contratante.

Outro elemento que sustenta a qualidade de crédito desses papéis é o contrato de longo prazo. Um contrato de uso do centro de dados com a Meta, válido por até 20 anos, ajudou a garantir aos papéis a classificação A+ da S&P Global. Em termos didáticos, um fluxo de receita contratado por longo período tende a dar mais previsibilidade ao pagamento da dívida, o que se reflete na nota de crédito.

A estrutura não é inédita. Anteriormente, Meta e a gestora americana Blue Owl Capital adotaram modelo semelhante para financiar o megacentro de dados Hyperion, na Louisiana, captando cerca de US$ 27,3 bilhões no mercado de títulos.

O que é o spread — e por que ele subiu

O spread (ou prêmio de risco) é o retorno adicional que o investidor exige para financiar um emissor, acima de uma referência considerada mais segura. Quanto maior a percepção de risco, maior o prêmio cobrado.

A comparação entre duas operações do mesmo modelo torna isso concreto. O spread dos títulos do Hyperion era de 2,25 pontos percentuais. Na operação da BlackRock, subiu para 2,88 pontos, refletindo a redução do entusiasmo e o aumento da cautela dos investidores. Ou seja: para financiar uma estrutura parecida, o mercado passou a exigir um prêmio maior.

A oferta de papéis ligados à IA se multiplicou

Esse comportamento não ocorre no vácuo. O volume de emissões ligadas ao tema cresceu de forma acentuada. Neste ano, cerca de 15% dos títulos emitidos nos Estados Unidos vieram de hiperescaladores — grandes provedores de computação em nuvem —, além de desenvolvedores e operadores de centros de dados e empresas de energia; a participação é quase 20 vezes maior do que a registrada há um ano.

Quando a oferta de um tipo de papel aumenta rapidamente, é comum observar pressão sobre os preços já negociados. Quando a Amazon captou US$ 25 bilhões com uma emissão de títulos, em 7 de julho, os papéis da companhia já em circulação perderam valor logo após a definição das condições da oferta.

O peso do setor também tende a crescer no mercado de dívida. Segundo Nathaniel Rosenbaum, estrategista da equipe de crédito de alta qualidade do JP Morgan, até o fim do ano o setor de tecnologia deverá superar os bancos e se tornar o maior segmento do mercado americano de títulos.

Também no mercado de ações e nos empréstimos

O movimento aparece igualmente na captação via ações. Segundo dados da London Stock Exchange Group (LSEG), 12 das 15 maiores captações realizadas neste ano por meio de ofertas públicas de ações vieram de empresas ligadas à inteligência artificial. A SpaceX liderou o ranking, levantando cerca de US$ 86,2 bilhões, e a Alphabet, controladora do Google, captou US$ 84,75 bilhões no mês passado com a emissão de ações ordinárias e preferenciais. A sul-coreana SK Hynix levantou outros US$ 26,5 bilhões por meio da emissão de recibos de depósito americanos (ADRs).

O caso da SpaceX ilustra a volatilidade de preços que pode acompanhar esse tipo de captação: com ações precificadas a US$ 135, a empresa foi avaliada em US$ 1,77 trilhão. A SpaceX chegou a valer cerca de US$ 3 trilhões após a estreia, mas passou a valer em torno da metade desse pico, com as ações caindo abaixo do preço inicial de US$ 135 e se aproximando de US$ 100.

Nos empréstimos sindicados, o avanço também é expressivo. Segundo a LSEG, as operações nos Estados Unidos destinadas a data centers e atividades correlatas alcançaram US$ 96 bilhões no primeiro semestre, mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. O maior empréstimo sindicado de 2026 até então — de US$ 22,75 bilhões, liderado pelo Mitsubishi UFJ Financial Group — foi destinado a um empreendimento da Vantage Data Centers no Texas.

Investimento produtivo e cadeia de fornecedores

O tema não se restringe ao mercado financeiro. Os planos de investimento de mais de 700 empresas japonesas somam 35,67 trilhões de ienes (US$ 226 bilhões), alta de 14,2% em relação ao exercício anterior, impulsionados pela expansão de centros de dados, produção de chips e redes elétricas ligadas à IA. Se confirmada, será a primeira expansão superior a 10% em quatro anos. Esse avanço dos data centers beneficia toda a cadeia de fornecedores, incluindo fabricantes de chips, cabos, componentes ópticos, sistemas de refrigeração e equipamentos para distribuição de energia.

Volatilidade e incerteza no setor de chips

O otimismo, porém, convive com forte oscilação de preços. O índice de semicondutores da Bolsa da Filadélfia (SOX), que reúne 30 das maiores fabricantes de chips do mundo, caiu 21% em julho, registrando o pior desempenho mensal desde outubro de 2008. A instabilidade reflete a crescente preocupação dos investidores com a continuidade dos investimentos em IA feitos pelas grandes empresas de tecnologia.

Essa cautela aparece também na fala de gestores. "Nós, da Pimco, somos bastante cautelosos" em relação aos investimentos em IA, afirmou Daniel Ivascyn, diretor de investimentos da gestora, acrescentando não querer ter exposição excessiva a esse risco.

Como ler isso no contexto brasileiro

Para o investidor que acompanha renda fixa e crédito no Brasil, o conceito de prêmio de risco é o mesmo aplicado às operações internacionais. Como referência de indicadores domésticos, a Selic estava em 14,25% ao ano, conforme observação de 5 de agosto de 2026, e o CDI em 14,15% ao ano, em 30 de julho de 2026. Já o IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,64%, na leitura de junho de 2026. Esses números ajudam a contextualizar o custo do dinheiro, mas não constituem qualquer previsão de retorno.

Síntese didática

O ponto central para o estudo do mecanismo é este: quando a oferta de um tipo de dívida cresce rapidamente e a percepção de risco aumenta, os investidores tendem a exigir prêmios maiores — como mostra a diferença entre os spreads do Hyperion (2,25 pontos percentuais) e da operação da BlackRock (2,88 pontos). Entender como o spread se forma, o papel dos contratos de longo prazo nas notas de crédito e o efeito do volume de emissões sobre os preços é parte fundamental da alfabetização financeira sobre mercado de capitais.