Rotação global: por que o capital estrangeiro trocou ações por dívida nos emergentes
Euller Santana perfil do autor
Uma mudança de composição, não uma fuga
O capital estrangeiro começou 2026 com forte apetite por mercados emergentes, mas o movimento mudou de direção ao longo do ano, com saída particularmente intensa das ações e continuidade da atração pela renda fixa. Segundo dados do Institute of International Finance (IIF) citados pela imprensa, em julho os mercados emergentes receberam US$ 18,8 bilhões líquidos, interrompendo dois meses consecutivos de saídas; foram US$ 25,2 bilhões em maio e US$ 18 bilhões em junho.
O número agregado, porém, esconde uma divergência entre classes de ativos. A dívida emergente recebeu US$ 26,7 bilhões em julho, enquanto as ações tiveram saída de US$ 7,8 bilhões; em junho, a saída de ações havia chegado a US$ 46,1 bilhões. Ou seja, o resultado positivo do mês veio da renda fixa, não do mercado acionário.
No acumulado do ano, o contraste fica mais nítido. Até julho, a dívida dos emergentes havia atraído US$ 214,4 bilhões, contra US$ 177,7 bilhões no mesmo período de 2025. Já as ações acumulavam saída de US$ 86 bilhões, quase dez vezes os US$ 9 bilhões retirados no mesmo período do ano passado. Trata-se, portanto, menos de uma fuga indiscriminada dos emergentes e mais de uma mudança na composição das carteiras globais.
O ponto mais agudo e a reversão
Março foi o momento mais tenso do ano em termos de aversão ao risco: investidores estrangeiros retiraram US$ 70,3 bilhões de ações e títulos emergentes naquele mês, o maior fluxo mensal de saída desde março de 2020. Em abril houve uma reversão igualmente forte, com entrada líquida de US$ 70,6 bilhões, mas novamente concentrada na renda fixa: a dívida recebeu US$ 51,9 bilhões, enquanto as ações tiveram entrada de apenas US$ 6,4 bilhões.
Por que a dívida atraiu mais que as ações
Parte da explicação está no retorno oferecido pela renda fixa emergente. Os spreads dos títulos soberanos de países emergentes atingiram em julho o menor nível em quase duas décadas, enquanto a emissão de dívida soberana chegou a cerca de US$ 19 bilhões no mês, aproximadamente o dobro da média histórica para julho. No acumulado do ano, as emissões soberanas emergentes chegaram a cerca de US$ 187 bilhões, recorde para o período.
Esse é o mecanismo típico do chamado carry trade: em um ambiente de juros elevados e volatilidade cambial relativamente baixa, o investidor busca a diferença entre taxas. Vale registrar, como educação de risco, que fatores como uma política monetária americana mais apertada, intervenções cambiais e choques geopolíticos podem interromper esse tipo de fluxo.
O epicentro asiático
O movimento mais expressivo de venda seguiu concentrado na Ásia. Em julho, os investidores estrangeiros retiraram US$ 22,95 bilhões de ações taiwanesas e US$ 6,26 bilhões de ações sul-coreanas, no nono mês consecutivo de saída das bolsas asiáticas. O tema de fundo é o tamanho dos investimentos em inteligência artificial e as dúvidas sobre a demanda por semicondutores.
A rotação também tem beneficiado outros destinos: em julho, a Índia recebeu US$ 2,12 bilhões em ações, enquanto Tailândia, Indonésia e Filipinas registraram entradas menores. A China foi exceção à melhora do mês: os estrangeiros retiraram US$ 3,7 bilhões das ações chinesas e US$ 3,4 bilhões da dívida.
O caso brasileiro: do auge à virada
O Brasil teve trajetória própria na primeira metade do ano. A B3 registrou entrada líquida de R$ 53,36 bilhões de capital estrangeiro no primeiro trimestre, o melhor resultado para um primeiro trimestre desde 2022. Em abril, o saldo acumulado na Bolsa chegou a cerca de R$ 60,7 bilhões, segundo levantamento da Elos Ayta divulgado pela B3. No início do ano, o estrangeiro chegou a responder por mais de 60% dos negócios da B3, participação excepcionalmente elevada.
A maré virou no segundo trimestre. Em maio, os estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões, segundo a Elos Ayta com base nos dados da bolsa; em junho, a saída foi de R$ 7,79 bilhões. Em agosto, o movimento voltou a se deteriorar: nos sete primeiros pregões do mês, até 11 de agosto, a saída chegou a R$ 11,9 bilhões.
A velocidade da retirada ganhou força após uma mudança de avaliação. Em 11 de agosto, o JPMorgan rebaixou sua recomendação para o Brasil de overweight para neutra, citando o fim do ciclo de flexibilização monetária, a desaceleração da economia e a deterioração do ciclo de crédito. Naquele dia, os estrangeiros retiraram R$ 4,7 bilhões da B3 e o Ibovespa caiu 2,5%, segundo levantamento divulgado no mercado.
Entre os fluxos individuais, a GQG Partners — gestora global sediada nos Estados Unidos, com forte atuação em mercados emergentes — reduziu de forma relevante sua exposição às ações brasileiras. Na quarta-feira, quando a gestora já reduzia suas posições, a retirada de investidores estrangeiros da B3 somou R$ 1,6 bilhão, segundo dados da bolsa.
Portfólio não é investimento direto
Uma distinção importante: a saída da Bolsa não significa que o capital estrangeiro esteja abandonando o país. Os dados do Banco Central mostram que o investimento direto no país (IDP) seguiu forte — somente em junho, o IDP somou US$ 9,1 bilhões, contra US$ 3,1 bilhões em junho de 2025. Investimento direto tende a ser mais estrutural, enquanto o de portfólio é mais sensível a juros, câmbio, valuation e percepção de risco.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) ajuda a explicar por que esses movimentos ficaram mais rápidos: estima que os fluxos transfronteiriços de portfólio para emergentes chegaram a aproximadamente US$ 4 trilhões acumulados em 2025, oito vezes mais do que após a crise financeira global.
Câmbio e o "prêmio eleitoral"
No mercado de câmbio, análises apontam que o real acumulou queda na casa dos 2% na semana e teve desempenho pior que outras moedas emergentes, atribuído principalmente ao aumento da percepção de risco eleitoral. As posições compradas em real seguiam elevadas: dados da International Money Market (IMM) colocavam essas posições no percentil 99 dos últimos dez anos, enquanto uma pesquisa do JP Morgan mostrava o real no percentil 81 e como a segunda moeda mais comprada entre emergentes. O dólar superou a média móvel de 200 dias, em torno de R$ 5,20, acionando ordens automáticas de compra.
Indicadores para contextualizar
Para enquadrar o pano de fundo macroeconômico, alguns dados observados no período: o Brasil passa por um período de afrouxamento monetário a conta-gotas, com a Selic em 14,00% ao ano, conforme análise do mercado. Na série do Banco Central, a taxa Selic figurava em 14% ao ano na observação de 16 de setembro de 2026, e o CDI em 13,9% ao ano na observação de 13 de agosto de 2026. O dólar PTAX foi observado em 5,2236 BRL/USD em 14 de agosto de 2026. No campo de preços, o IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,44% na observação de julho de 2026, com variação mensal de 0,07% no mesmo período, enquanto o IGP-M registrou -1,16% no mês de julho de 2026. No mercado de trabalho, a taxa de desemprego (PNAD) foi de 5,4% na observação de fevereiro de 2026.
O que fica desta leitura
A rotação de 2026 mostra como a composição dos fluxos importa tanto quanto o volume total: um mesmo mês pode combinar entrada em dívida e saída de ações. Entender essa distinção — e a diferença entre capital de portfólio e investimento direto — é parte da alfabetização financeira necessária para interpretar manchetes de mercado sem tirar conclusões apressadas.