Abertura de pequenos negócios e crédito cooperativo: como ler o cenário de financiamento das PMEs
Euller Santana perfil do autor
Um retrato do surgimento de empresas no Brasil
Entender como novas empresas surgem e como elas se financiam é parte central da gestão financeira de pequenas e médias empresas. Nesta leitura técnica, o objetivo é explicar o que os dados recentes descrevem sobre a criação de negócios e sobre o crédito voltado a esse público — sem qualquer sugestão de ação.
É o que aponta o estudo “Abertura de Pequenos Negócios no Brasil”, feito pelo Sebrae a partir de dados da Receita Federal. A partir dessa base, é possível dimensionar o ritmo de criação de empresas no país.
O número de pequenos negócios abertos nos primeiros sete meses do ano é quase 14% superior ao registrado no mesmo período de 2025. De janeiro a julho de 2026, foi contabilizada a abertura de 3,6 milhões de novos negócios no país. Desse universo, 3,4 milhões (96,7%) são microempreendedores individuais (MEI), microempresas e empresas de pequeno porte.
Esse resultado tem certa continuidade: este é o quarto mês consecutivo de crescimento no número de pequenos negócios abertos na economia brasileira.
Como se distribui essa criação de empresas
Quando se observa o comportamento por porte, entre os MEI houve um crescimento de 14,5% na abertura de novos CNPJ em comparação com o mesmo período de 2025. Já entre as micro e pequenas empresas o crescimento foi superior a 11%.
A composição do total também é informativa: dos 3,4 milhões de novos pequenos negócios nos primeiros sete meses do ano, cerca de 77% são MEI, 19% são microempresas e quase 4%, empresas de pequeno porte.
Por setor de atividade, o setor de Serviços liderou a abertura de novos pequenos negócios no mês de julho, com 308 mil novas empresas (65%), seguido pelo Comércio, com mais de 96 mil novos CNPJ (20%), e Indústria, com mais de 37 mil negócios criados (8%). Essa distribuição ajuda a entender em quais atividades a formalização se concentra.
O crédito cooperativo como fonte de financiamento
O acesso a crédito é um dos temas estruturais para micro e pequenas empresas, e o cooperativismo de crédito aparece nesse contexto. As cooperativas de crédito registraram expansão consistente nos últimos anos e hoje somam 8,5% da carteira total do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Em termos de volume, o setor encerrou o último ano com R$ 1 trilhão em ativos, segundo o Banco Central. O ritmo também chamou atenção: a carteira das cooperativas cresceu 13,1% em relação ao ano anterior, superando a alta de 8,5% registrada pelos demais bancos e instituições financeiras.
A base de participantes acompanhou o movimento. A quantidade de cooperados, com avanço constante nos últimos cinco anos, cresceu 10,4% entre 2024 e 2025, atingindo 21,2 milhões no fim de dezembro. Além disso, as cooperativas têm presença física em 59% dos municípios brasileiros — o que amplia a capilaridade do atendimento.
Do ponto de vista operacional, as cooperativas de crédito funcionam de maneira similar à dos bancos, com oferta de todos os principais produtos bancários: empréstimos pessoais, financiamentos de imóveis e veículos, cartões e seguros, investimentos, entre outros. Como camada de proteção, contam com um fundo garantidor próprio, o FGCoop, que cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em caso de liquidação.
O perfil de tomadores reforça a relevância para o segmento empresarial: o ramo de crédito encerrou 2025 com 17,8 milhões de cooperados pessoas físicas e 3,4 milhões de pessoas jurídicas. Como exemplo de concentração de carteira, a maior parte da carteira de crédito de R$ 270 bilhões do Sicoob está em crédito para empresas (R$ 109 bilhões), seguido por crédito para o setor rural (R$ 95 bilhões).
Os indicadores que ajudam a interpretar o custo do crédito
O custo e a disponibilidade de crédito estão associados a indicadores macroeconômicos. A leitura técnica desses números é parte da análise financeira de qualquer empresa.
A taxa Selic foi observada em 14% a.a. em 16 de setembro de 2026. O CDI, referência para diversas operações do mercado financeiro, foi observado em 13,9% a.a. em 17 de agosto de 2026.
Do lado da inflação, o IPCA acumulado em 12 meses foi observado em 4,44% em 1º de julho de 2026. Já o IGP-M registrou variação de -1,16% no mês, observado em 1º de julho de 2026.
Esses indicadores compõem o pano de fundo em que o crédito é ofertado e tomado. Compreendê-los não substitui uma análise individual, mas ajuda o gestor a interpretar o ambiente em que sua empresa opera.
Leitura integrada do cenário
Os dados descrevem dois movimentos paralelos: de um lado, o avanço na abertura de pequenos negócios; de outro, a expansão do crédito cooperativo voltado, sobretudo, a micro e pequenas empresas. Colocados lado a lado, ambos fazem parte do mesmo ecossistema de financiamento e formalização, cujo entendimento é fundamental para a gestão financeira das PMEs.