Surfista Maria do Sol durante palestra sobre esgotamento na gestão empresarial em São Paulo

Esgotamento na gestão empresarial: o que uma campeã de surf ensina

Julia Fonseca

O esgotamento na gestão empresarial deixou de ser um assunto de bastidor para ocupar o palco principal de eventos de negócios. Na Expo Empreendedor 2026, em São Paulo, a surfista Maria do Sol Vasconcelos, de 50 anos, campeã brasileira de surf adaptado em 2024 e quinta colocada no mundial disputado no Havaí em 2025, colocou o tema no centro de sua palestra: o preço que a cultura do "dar conta de tudo" cobra de quem lidera uma empresa.

O ponto de partida dela foi direto: "Nunca estivemos tão sobrecarregados, e isso é validado coletivamente", descrevendo o que chamou de cultura do "vai lá, dá conta". Para um público de empreendedores, a provocação funciona porque toca em algo que raramente aparece nas planilhas: a saúde de quem decide. Neste artigo, a proposta é entender o mecanismo por tras desse discurso, sem transformar metáfora em receita pronta.

Por que o esgotamento virou pauta de gestão

Gerir um negócio no Brasil envolve conviver com variáveis que oscilam o tempo todo. Custo de crédito, câmbio e inflação mudam o cenário de planejamento de um mês para o outro, e essa imprevisibilidade tem paralelo direto com a fala de Vasconcelos: "Tem ondas que a gente precisa surfar. A onda não vai perguntar quando ela vem", relacionando a metáfora à imprevisibilidade que também marca a gestão de uma empresa.

O recado central é que o esgotamento não é falha individual, mas efeito de um ambiente que premia crescimento constante. Segundo ela, o aumento de casos de burnout e de autocobrança entre empresários é sinal de que a métrica de sucesso precisa mudar. É aqui que a discussão sai do campo motivacional e entra na gestão: quando o líder quebra, o negócio quebra junto.

Vasconcelos, que perdeu os dois pés aos 42 dias de vida, em um acidente doméstico com fogo, contou que voltou a competir e se tornou campeã de surf adaptado aos 46 anos, período em que diz ter passado a priorizar o próprio bem-estar. A trajetória sustenta o argumento de que resultado e cuidado pessoal não são forças opostas, e sim complementares.

O ambiente macro que pressiona o empreendedor

Para dimensionar por que a sensação de sobrecarga é tão real, vale olhar alguns indicadores oficiais que compõem o pano de fundo da tomada de decisão. Eles não explicam o burnout, mas ajudam a entender a pressão sobre o caixa e o planejamento.

Esses números, lidos como fotografias no tempo, mostram um ambiente de juros altos convivendo com inflação de um dígito. Para o gestor, isso significa margem apertada e decisões tomadas sob tensão, exatamente o cenário em que a autocobrança se intensifica. Entender esse contexto faz parte de uma boa educação financeira, que ajuda a separar o que é problema de gestão do que é ruído de conjuntura.

Métricas financeiras não contam a história toda

Um dos trechos mais provocativos da palestra tratou da relação entre dinheiro e propósito. "Ninguém vai levar o dinheiro da empresa. Isso é legal, mas é preciso equilíbrio", disse, ao defender que resultado financeiro não substitui autoconhecimento na hora de sustentar um negócio no longo prazo.

Isso não significa desprezar dados. Significa reconhecer que o painel de indicadores de uma empresa mede o negócio, não o estado de quem o conduz. Vasconcelos defendeu que sinais como segurança pessoal e disposição para o trabalho sejam levados tão a sério quanto os indicadores financeiros do negócio. Em termos práticos, é a ideia de acrescentar variáveis humanas ao acompanhamento de gestão, e não substituir uma coisa pela outra.

A frase que fechou o raciocínio foi contundente: "A pessoa que quer crescer é mais importante do que a empresa", afirmou. Para o empreendedor, o convite é inverter a ordem usual, em que o negócio dita o ritmo de vida do dono, muitas vezes até o ponto de ruptura.

Como transformar a provocação em rotina de gestão

A palestra não entregou fórmula, mas a lógica por trás dela pode virar prática de organização. Alguns caminhos de reflexão que se conectam ao discurso:

  1. Trate o bem-estar do líder como um indicador de risco do negócio, não como tema paralelo.
  2. Reconheça que o crescimento não é linear. Como ela disse, "A gente não cresce linearmente. As ondas da vida têm fases: aceleram, desaceleram. Envelhecer é da vida".
  3. Reserve tempo para decidir fora do modo urgência, já que decisões sob pressão tendem a ampliar a autocobrança.

Essa estrutura conversa com o planejamento financeiro pessoal: quando as finanças do dono estão organizadas, sobra folga mental para conduzir a empresa sem se anular. E para o negócio em si, o apoio de uma consultoria empresarial Dotless pode ajudar a montar painéis que equilibrem números e sustentabilidade de quem lidera.

O limite entre intuição e dado

Vasconcelos encerrou a fala reforçando que decisões de negócio não deveriam se basear apenas em métricas. "Quem rege você não são os seus dados, nem sua empresa. São as suas vibrações, seu espiritual", disse, defendendo que empresários reservem tempo para ouvir a própria intuição antes de tomar decisões sob pressão.

Aqui é preciso ler com cuidado. A leitura útil para gestão não é abandonar os números, e sim reconhecer que eles são insumo, não sentença. Primeira mulher paratleta do time da Surfland Brasil, hoje palestrante e mentora com foco em liderança e superação de limites, ela fala de um lugar em que superou adversidade extrema sem deixar de competir em alto nível.

O valor do episódio para o empreendedor está menos na metáfora do surf e mais na pergunta que ela força: quanto do seu sistema de decisão depende exclusivamente de indicadores, e quanto considera a capacidade real de quem está no comando de sustentar o ritmo? Entender esse equilíbrio, sem receitas mágicas, já é um passo de amadurecimento em gestão.