
Formalização de negócios no Brasil: o que os dados sobre empreendedoras negras revelam sobre CNPJ e crédito
Euller Santana
A formalização de negócios no Brasil voltou ao centro do debate com a divulgação da pesquisa Mulheres Empreendedoras e seus Negócios (IRME-2025), realizada pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME). Segundo o levantamento, apesar de representarem 49% das empreendedoras do país, apenas 45,6% das mulheres negras possuem negócios formalizados, enquanto entre as empreendedoras brancas o percentual chega a 60,3%.
Mais do que um recorte social, esse dado ajuda a entender um mecanismo financeiro concreto: como a existência (ou a ausência) de um CNPJ altera o acesso a crédito, a emissão de notas fiscais e a separação entre contas pessoais e empresariais. É sobre esse mecanismo que este texto se debruça, sem qualquer intenção de dizer o que cada empreendedora deve fazer, e sim de explicar por que a formalização aparece com tanta força na conversa sobre gestão.
Formalização de negócios no Brasil: o que a pesquisa mostra
Para Ana Fontes, CEO e fundadora do IRME, a diferença entre os percentuais evidencia como as desigualdades raciais e de gênero continuam influenciando as oportunidades de crescimento. Segundo ela, "a sobreposição de gênero e raça torna o ato de empreender um desafio contínuo, no qual o preconceito e a discriminação se consolidam como obstáculos adicionais".
Um dos números mais reveladores da pesquisa diz respeito ao financiamento: 74,5% das empreendedoras que conseguem financiamento recorrem ao CPF, e não ao CNPJ. Esse detalhe pode parecer burocrático, mas tem efeitos financeiros diretos. Quando o crédito é tomado no CPF, a dívida da empresa vira dívida da pessoa, e a leitura de risco feita pela instituição financeira muda de figura.
Por que o CNPJ muda o acesso ao crédito
A reportagem descreve com clareza a cadeia de consequências da informalidade. Sem CNPJ, muitas empreendedoras encontram dificuldades para emitir notas fiscais, acessar novos mercados e obter crédito em condições mais favoráveis. Ou seja, a falta de formalização não é só um problema de imagem: ela estreita as portas de entrada do negócio.
Há ainda um segundo efeito apontado pela pesquisa. O uso do CPF para financiar a empresa é um cenário que pode resultar em juros mais altos e na mistura entre as contas pessoais e empresariais. Essa mistura é um clássico obstáculo de gestão. Quando não se sabe onde termina o caixa da casa e começa o caixa da empresa, fica difícil medir margem, precificar corretamente e planejar. Entender essa separação é um dos pilares da educação financeira aplicada ao pequeno negócio.
Alguns princípios ajudam a raciocinar sobre o tema, sempre no plano conceitual:
- Separação de contas: conta da pessoa física e conta da empresa cumprem funções diferentes e não deveriam se confundir.
- Rastreabilidade: notas fiscais e registros formais criam um histórico que a instituição financeira consegue ler.
- Perfil de risco: o CNPJ permite que a empresa construa sua própria reputação de crédito, distinta da pessoa física.
O custo do dinheiro no cenário atual
Para compreender por que "juros mais altos" pesam tanto na frase da pesquisa, vale observar o preço de referência do dinheiro na economia. A taxa Selic, na observação de 05/08/2026, estava em 14,25% ao ano. Já o CDI, na leitura de 23/07/2026, estava em 14,15% ao ano.
Esses dois indicadores funcionam como âncoras de custo: muitas linhas de crédito são precificadas com base neles, acrescidas de um spread que reflete o risco de cada tomador. Quando uma empreendedora acessa crédito pelo CPF, misturando contas e sem histórico formal, ela tende a ser enquadrada em um perfil de risco que encarece esse spread. O raciocínio aqui é de mecanismo, não de recomendação: quanto mais opaca a informação financeira, mais cara costuma ser a percepção de risco. Esse tipo de leitura macroeconômica é parte do trabalho de planejamento financeiro pessoal e empresarial.
Concentração setorial e diferença de faturamento
A pesquisa e os dados do Sebrae também ajudam a explicar por que os resultados financeiros variam tanto. Fau Ferreira, gestora nacional de Afroempreendedorismo do Sebrae, destaca que "uma empreendedora negra fatura 59% a menos que um homem branco empreendedor". Segundo ela, a concentração dessas empreendedoras em atividades de menor valor agregado contribui para a desigualdade.
Esse ponto se conecta com outro número: de acordo com dados do Sebrae, 80,6% das empreendedoras negras estão concentradas nos setores de comércio e serviços. Concentração setorial não é, por si só, um problema, mas ajuda a entender o teto de faturamento e a margem que muitos negócios enfrentam. Pensar em valor agregado, precificação e diferenciação faz parte da agenda de qualquer consultoria empresarial Dotless voltada a pequenos e médios negócios.
Gestão além do CNPJ: o que as histórias ensinam
Apesar das barreiras, a pesquisa do IRME aponta capacidade de gestão. O levantamento mostra que 57,3% mantêm seus negócios sem dívidas, enquanto 58,3% das mulheres negras são responsáveis pelo sustento de seus lares. São dados que reforçam o papel desses empreendimentos na geração de renda e autonomia econômica, mesmo diante de um acesso a crédito mais restrito.
As histórias citadas na cobertura ilustram como capacitação e disciplina financeira se combinam. A paulistana Wiara Carvalho, 34 anos, do Ateliê Afro Toque de Criolla, começou com um investimento inicial de R$ 700 e desenvolveu uma técnica própria de artesanato. As peças dela variam de R$ 12 a R$ 50, e 90% das vendas acontecem presencialmente em eventos e feiras culturais, o que mostra como o canal de venda define a operação e o fluxo de caixa.
Já Bianca Soares, da agência Type Media, resume em uma frase o aprendizado que atravessa a reportagem: "busquem conhecimento e entendam que a formalização é o caminho". A afirmação sintetiza o elo entre gestão, conhecimento e estrutura formal.
Como transformar os dados em perguntas de gestão
Em vez de conclusões prontas, os números convidam o empreendedor a fazer perguntas melhores sobre o próprio negócio:
- Minhas contas pessoais e empresariais estão de fato separadas?
- Meu negócio tem registro formal que permita construir histórico de crédito?
- Consigo mensurar minha margem por produto ou serviço?
- O canal de venda que uso está alinhado com o custo da operação?
Essas perguntas não têm resposta única. O valor da pesquisa IRME-2025 está justamente em mostrar, com dados, que formalização, acesso a crédito e capacidade de gestão são partes de um mesmo sistema, e que entender esse sistema é o primeiro passo para pensar com clareza sobre qualquer negócio no Brasil.