Reportagem sobre gestão de estoque no varejo e a regra da União Europeia contra a destruição de produtos de luxo não vendidos

Gestão de estoque no varejo: a lição das marcas de luxo na Europa

Julia Fonseca

A gestão de estoque no varejo voltou ao centro do debate depois que a União Europeia anunciou, nesta semana, regras que obrigam grandes empresas do setor a repensar o destino de mercadorias encalhadas. Segundo a nova regulamentação, grandes empresas que atuam na União Europeia não poderão mais destruir roupas, calçados e acessórios não vendidos. Para quem administra uma pequena ou média empresa longe das passarelas de Paris, a notícia pode parecer distante, mas ela expõe um problema universal: o que fazer com aquilo que a empresa produziu, comprou ou fabricou e não conseguiu vender.

Mais do que uma pauta ambiental, a mudança acende uma luz sobre um dos temas mais silenciosos da administração de qualquer negócio que trabalha com produto físico. Estoque parado é dinheiro imobilizado, e a forma como esse excedente é tratado revela muito sobre a maturidade financeira de uma empresa. Neste artigo, o objetivo é explicar o mecanismo por trás da notícia e ajudar você a pensar sobre o assunto, sem receitas prontas.

O que muda na gestão de estoque no varejo com a nova regra europeia

O texto da regulamentação europeia é direto: as marcas terão de dar uma segunda destinação aos produtos não vendidos. Entre as alternativas previstas estão a venda por meio de canais de liquidação de estoque, a doação para instituições, o reparo, o recondicionamento ou a reciclagem dos materiais. A destruição só será permitida em situações específicas, especialmente quando o produto apresentar riscos, estiver danificado ou for falsificado.

A medida responde a um problema de escala relevante. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu são destruídos antes mesmo de serem utilizados. Isso representa, anualmente, entre 264 mil e quase 600 mil toneladas de roupas, calçados e acessórios novos. Para o bloco, esse desperdício deixou de ser compatível com as metas climáticas e com a estratégia de desenvolvimento de uma economia circular.

A prática de destruir mercadorias não é nova nem escondida. Em 2018, a grife britânica Burberry admitiu ter queimado mercadorias avaliadas em € 31 milhões, cerca de R$ 173 milhões, em um único ano para preservar sua imagem de exclusividade. Em 2021, a marca americana Coach foi criticada após a divulgação de vídeos que mostravam bolsas não vendidas sendo cortadas antes do descarte; diante da repercussão, a empresa anunciou o fim da prática e passou a investir em programas de reparo e revenda.

Por que destruir estoque virou estratégia (e por que ela custa caro)

Aqui está o ponto que interessa a quem estuda gestão. As marcas de luxo não vendem apenas roupas, bolsas ou sapatos: elas comercializam, sobretudo, uma ideia de exclusividade, cuja raridade é parte fundamental da construção de valor financeiro e simbólico de seus produtos. Por muito tempo, a destruição de itens não vendidos foi uma forma de preservar essa escassez e evitar que os produtos chegassem ao mercado por meio de liquidações em larga escala.

O raciocínio por trás disso é financeiro. Para grandes maisons de moda e artigos de couro, descontos frequentes podem enfraquecer a imagem da marca e reduzir o valor percebido de suas coleções. É por isso que grupos como LVMH, Chanel e Prada recebem a regulamentação com cautela: a principal preocupação é a necessidade de direcionar um volume maior de produtos para mercados secundários, o que pode banalizar artigos tradicionalmente associados à exclusividade.

Esse é um dilema clássico de precificação e posicionamento, e ele não pertence só ao luxo. Toda empresa que já se perguntou se deve liquidar um lote encalhado ou segurar o preço enfrenta uma versão menor do mesmo problema. A diferença é que, no varejo comum, poucas empresas podem se dar ao luxo, literalmente, de destruir aquilo que não vendeu. Entender o próprio posicionamento faz parte de um bom planejamento financeiro pessoal e, no contexto empresarial, de uma estratégia de precificação consistente.

O custo financeiro de carregar produtos parados

Uma das alternativas que o setor estuda é manter os produtos não vendidos armazenados por mais tempo. Essa solução, porém, envolve custos adicionais com logística, seguro, armazenamento e manuseio. Aqui entra um conceito central da gestão financeira: estoque não é neutro. Ele consome caixa, ocupa espaço e, enquanto está parado, deixa de gerar receita.

Esse custo tem também um componente de oportunidade ligado aos juros da economia. Quando o dinheiro está caro, o capital preso em prateleiras pesa ainda mais no resultado. A Selic, na observação de 05/08/2026, estava em 14,25% ao ano, patamar que ajuda a dimensionar o custo de imobilizar recursos em mercadoria que não gira. No mesmo sentido, o IPCA acumulado em 12 meses, na leitura de junho de 2026 (último dado disponível), estava em 4,64%, indicando que os custos de operação também se movem ao longo do tempo.

Para uma pequena ou média empresa, o exercício é prático: cada item parado tem um custo de armazenagem, um custo de capital e um risco de obsolescência. Compreender essa conta é parte do que se estuda em educação financeira aplicada ao negócio, e evita que o estoque vire um problema silencioso no fluxo de caixa.

Três caminhos de adaptação e o que sua empresa pode observar

O próprio setor de luxo aponta os caminhos que está considerando, e eles funcionam como material de estudo para qualquer gestor:

  1. Segurar o estoque por mais tempo. É a opção que empurra o problema para frente e adiciona custos de logística, seguro, armazenamento e manuseio.
  2. Ampliar canais de revenda sob controle rigoroso. Diversas empresas do setor já passaram a investir em programas próprios de revenda de itens usados ou recondicionados, escoando estoques sem prejudicar a imagem.
  3. Produzir menos e com mais precisão. A estratégia que vem ganhando força é ajustar os volumes de fabricação à demanda real do mercado.

A terceira via é a mais interessante do ponto de vista de gestão, porque ataca a causa e não o sintoma. Ainda assim, prever vendas na indústria da moda continua sendo um desafio: uma coleção pode virar sucesso comercial ou ter desempenho abaixo do esperado, e tendências mudam com rapidez.

Esse último ponto vale para praticamente todo negócio de produto. Planejamento de compras, análise de giro e leitura de demanda são disciplinas que separam empresas que sofrem com encalhe daquelas que trabalham com estoque enxuto. Estruturar esses processos costuma ser tema de consultoria empresarial Dotless, justamente porque a decisão de quanto comprar ou fabricar antecede o problema de o que fazer com o que sobrou.

Para o luxo europeu, o desafio agora é preservar a raridade de seus produtos sem recorrer à destruição, uma mudança significativa para um setor que, durante décadas, preferiu fazer seus excedentes desaparecerem a vê-los perder valor. Para o restante do mercado, fica a pergunta útil: quanto do seu caixa está imobilizado em prateleiras e o que a sua empresa faz com aquilo que não vende?