Franquias nos EUA versus imóveis: como funciona a diferença de mecanismo para o investidor brasileiro

Euller Santana perfil do autor

Um deslocamento de perfil descrito pela imprensa

A discussão sobre a presença de brasileiros no mercado dos Estados Unidos ganhou um novo ângulo. Segundo reportagem publicada pelo Valor Econômico, investidores brasileiros têm ampliado a busca por franquias como alternativa de investimento nos Estados Unidos. O movimento envolve empresários que aportam capital em redes com unidades já em operação — em estados como Geórgia e Flórida — como forma de ingressar no mercado americano por meio de um modelo de negócio previamente estruturado.

Para quem estuda planejamento patrimonial, o ponto relevante não é aconselhar um caminho ou outro, mas compreender o mecanismo que diferencia as duas lógicas de investimento. É isso que este artigo busca destrinchar, sempre a partir dos fatos descritos na reportagem.

Do ativo físico ao direito de operar uma marca

A franquia opera em outra lógica: em vez de um ativo físico para valorização ou aluguel, o investidor adquire o direito de operar uma marca com processos, fornecedores e padrões definidos pela franqueadora, formalizados no Franchise Disclosure Document (FDD), documento de divulgação obrigatória previsto na legislação americana.

Essa distinção é o coração do mecanismo. No modelo imobiliário, o retorno esperado tende a se ancorar na valorização do bem ou na renda de aluguel. Já na franquia, o objeto do investimento é um conjunto de direitos e obrigações contratuais — processos, fornecedores e padrões — organizados em torno de uma marca.

O papel do FDD como documento central

O Franchise Disclosure Document é apresentado pela reportagem como peça obrigatória. As condições, taxas e obrigações de cada parte são descritas no FDD da marca, entregue ao candidato antes de qualquer assinatura, conforme exige a regulamentação federal americana.

No relato da reportagem, o fundador da Brookstone Holding, Esdras Ribeiro, reforça a importância da leitura prévia do documento. Segundo ele, "é por isso que eu insisto que o investidor leia o FDD antes de se apaixonar pela fachada". A mesma fonte pondera que "franquia não é garantia de sucesso — nenhum negócio é", acrescentando que o que ela oferece é um histórico verificável e regras claras, e que a decisão continua sendo do investidor.

Os números que a reportagem usa para dimensionar o interesse

A matéria recorre a dados oficiais para medir o tamanho do movimento. Segundo levantamento do escritório AG Immigration com base em relatórios do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), o Brasil ocupou em 2023 a sexta posição entre os países com mais vistos de investidor EB-5 concedidos, com 157 autorizações — o recorde brasileiro foi registrado em 2018, com 388 vistos.

Há ainda um dado mais recente. Em 2024, reportagem da revista Exame, citando dados do USCIS compilados pela LCR Capital Partners, apontou crescimento de cerca de 30% nos pedidos de brasileiros em relação ao ano anterior. Esses números ajudam a contextualizar por que o tema entrou no radar de quem discute estruturação patrimonial internacional.

Os exemplos concretos citados na matéria

A reportagem cita a Brookstone Holding como grupo sediado em Atlanta, na Geórgia, com participações em marcas de franquia. Um exemplo do movimento é a Quesitos Express, rede do segmento de alimentação fundada por empreendedores latinos e lançada nos Estados Unidos, onde soma 11 lojas, com operação concentrada na região metropolitana de Atlanta.

Entre os casos recentes, dois investidores — um do interior de São Paulo e outro da Bahia — adquiriram franquias da rede e aplicaram para o visto de investidor E-2, em processos conduzidos por seus advogados de imigração. Um deles já vive em Orlando, na Flórida, com a família.

Segundo a franqueadora, o modelo oferecido ao franqueado inclui apoio na seleção do ponto comercial, treinamento operacional da equipe e acompanhamento da operação nos primeiros meses. Esse conjunto de serviços faz parte da estrutura que diferencia a franquia da simples aquisição de um imóvel.

Por que a presença física importa menos nesse modelo

Um elemento operacional destacado é a possibilidade de investir sem mudança imediata de país. De acordo com o relato de Esdras Ribeiro, existe um perfil de empresário que mantém seus negócios no Brasil e quer construir uma posição nos Estados Unidos de forma gradual, e a franquia com gestão acompanhada por equipe local permite esse caminho, porque a operação não depende da presença física do investidor desde o primeiro dia.

Ainda segundo a mesma fonte, o brasileiro que chega hoje não quer só um ativo em dólar: quer uma operação que gere receita, que crie empregos e que, dependendo do caso e sempre com orientação de advogados de imigração, possa se conectar a uma estratégia de visto de investidor.

A escolha da praça como decisão de mercado

A localização também é apresentada como parte do mecanismo de decisão. A região metropolitana de Atlanta, capital da Geórgia, é descrita como reunindo um dos aeroportos de maior movimento do mundo e custos operacionais inferiores aos de praças tradicionalmente procuradas por brasileiros, como o sul da Flórida.

Indicadores de contexto (informação, não recomendação)

Para situar o leitor no ambiente macroeconômico brasileiro no período da reportagem, vale registrar algumas leituras oficiais, sempre com a data de observação. O dólar PTAX teve leitura de 5,2014 BRL/USD, observado em 2026-08-17. A taxa Selic foi observada em 14% a.a. em 2026-09-16. O CDI teve leitura de 13,9% a.a., observado em 2026-08-14. O IPCA acumulado em 12 meses foi de 4,44%, observado em 2026-07-01.

Esses números são apenas contexto informativo e não constituem recomendação de investimento nem projeção de resultado.

O que fica do mecanismo

Em resumo, a reportagem descreve um deslocamento: o Valor relata que investidores brasileiros têm ampliado a busca por franquias como alternativa de investimento nos Estados Unidos, adquirindo o direito de operar uma marca com processos, fornecedores e padrões definidos pela franqueadora, em contraste com o ativo físico do imóvel. O documento que organiza esse direito é o FDD, entregue antes de qualquer assinatura. A própria matéria alerta que investimento em franquia envolve riscos e que resultados passados não garantem resultados futuros, e que questões de imigração e vistos de investidor devem ser tratadas com advogados de imigração licenciados.

Compreender esse mecanismo — sem confundi-lo com uma indicação de caminho — é o que permite ao leitor avaliar com autonomia como cada modelo se encaixa, ou não, em uma estratégia patrimonial.