Concentração de riqueza e planejamento patrimonial: o que o avanço da gestão de fortunas no Japão ensina
Julia Fonseca perfil do autor
Por que a corrida por clientes ultrarricos no Japão interessa a quem estuda sucessão
O noticiário financeiro internacional trouxe um retrato útil para quem estuda planejamento patrimonial e sucessório: a intensificação da disputa entre grandes bancos por famílias de altíssimo patrimônio. Segundo a reportagem base, os maiores bancos do Japão estão intensificando a disputa por clientes ultrarricos, ampliando equipes e serviços especializados à medida que a valorização de ações e imóveis aumenta as fortunas privadas e leva o setor a rever suas estratégias de crescimento.
Este artigo tem finalidade educativa. A intenção é explicar o mecanismo por trás desse movimento — a articulação entre gestão de patrimônio e planejamento sucessório — sem qualquer recomendação de produto, ativo ou estratégia de investimento.
O que os números do Japão mostram
O ponto de partida do movimento é o crescimento das famílias mais ricas. De acordo com a matéria, cerca de 120 mil famílias tinham pelo menos 500 milhões de ienes (US$ 3,1 milhões) em ativos financeiros em 2023, segundo o Instituto de Pesquisa Nomura — um aumento de aproximadamente 40% em relação a 2019.
A concentração fica evidente quando se observa a fatia da riqueza. Embora representassem apenas 0,2% do total de famílias, seus 135 trilhões de ienes em ativos correspondiam a cerca de 10% da riqueza financeira do país. Esse contraste — poucas famílias detendo parcela expressiva do patrimônio financeiro — é justamente o que atrai o esforço comercial das instituições.
O desenho das equipes reflete essa prioridade. O Sumitomo Mitsui Financial Group planeja dobrar para cerca de 400, até o ano fiscal de 2028, o número de gerentes de relacionamento que atendem clientes de altíssimo patrimônio. O Mizuho Financial Group pretende ampliar em 50% sua equipe de especialistas em relação ao nível do ano fiscal de 2024 até o fim do ano fiscal de 2026. Já o Mitsubishi UFJ Financial Group dobrou, desde o ano fiscal de 2023, o número de funcionários dedicados a clientes ricos, chegando a cerca de 2.500.
Há também metas de estrutura e de ativos sob gestão. A SMFG planeja ampliar de Tóquio e Osaka para 12 localidades em todo o país sua rede de centros de gestão de patrimônio, e pretende elevar em 20%, em relação ao ano fiscal de 2025, os ativos sob gestão de clientes ultrarricos, para 28 trilhões de ienes até o ano fiscal de 2028. O Mizuho está aumentando o número de funcionários dedicados a clientes com patrimônio de 3 bilhões de ienes ou mais e lançou, em abril, uma unidade especializada em seu banco fiduciário para administrar os ativos de empresários.
O elo com o planejamento sucessório
O ponto mais relevante para quem trabalha com holding e sucessão é o escopo dos serviços. Conforme a reportagem, os serviços para esses clientes normalmente vão além da gestão de patrimônio pessoal e incluem assessoria em fusões e aquisições, estratégia de capital e planejamento patrimonial para empresários e suas famílias.
Ou seja, o planejamento patrimonial deixa de ser um item acessório e passa a integrar o núcleo da relação. A matéria observa ainda que a valorização de ações e imóveis, somada à riqueza herdada, elevou o patrimônio dessas famílias e intensificou a concorrência entre as instituições financeiras. A menção explícita à "riqueza herdada" ilustra como a transmissão entre gerações se torna um vetor central de acúmulo patrimonial — tema no coração do planejamento sucessório.
O texto também descreve uma mudança de modelo. Segundo a reportagem, o foco crescente nos ultrarricos pode representar uma mudança mais ampla no setor bancário japonês, com a gestão de patrimônio ganhando importância como fonte de lucro em relação aos empréstimos tradicionais. Para o profissional de planejamento, isso reforça que a organização do patrimônio familiar e empresarial ganha peso quando as fortunas crescem e se tornam mais complexas.
Um paralelo com movimentos globais
O caso japonês acompanha uma tendência observada entre grandes instituições financeiras ocidentais, nas quais a gestão de patrimônio se tornou um importante motor de crescimento, ao lado do banco de investimento. A reportagem cita, por exemplo, que a divisão de gestão de patrimônio do Morgan Stanley responde por quase metade da receita do grupo, com US$ 7,4 trilhões em ativos de clientes no fim de 2025, alta de 85% em cinco anos.
Esses dados ajudam a entender por que a estruturação de patrimônio, a governança familiar e o planejamento sucessório ganham espaço nas grandes casas financeiras: são relações de longo prazo e, segundo a matéria, os bancos também valorizam as receitas estáveis proporcionadas por relacionamentos de longo prazo.
E o contexto econômico brasileiro?
Embora o retrato acima seja do mercado japonês, o planejamento patrimonial no Brasil ocorre sob um pano de fundo econômico próprio, que ajuda a contextualizar decisões de organização de patrimônio. Alguns indicadores observados recentemente:
- A taxa Selic estava em 14% a.a., em leitura observada em 16/09/2026.
- O CDI estava em 13,9% a.a., em leitura observada em 13/08/2026.
- O IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,44%, em leitura observada em 01/07/2026.
- O dólar PTAX estava em 5,2236 BRL/USD, em leitura observada em 14/08/2026.
Esses números descrevem o ambiente em que patrimônios são organizados e transmitidos, mas não constituem recomendação de qualquer aplicação. O planejamento sucessório envolve dimensões jurídicas e tributárias que vão além do cenário macroeconômico.
O que fica como aprendizado
O movimento descrito no Japão evidencia uma lógica que também é central no debate brasileiro sobre holding e sucessão: à medida que o patrimônio cresce e passa por gerações, cresce a demanda por estruturas que integrem gestão, governança e planejamento patrimonial. A reportagem resume esse ambiente ao afirmar que o foco crescente nos ultrarricos evidencia não apenas uma mudança no modelo de negócios, mas também o aumento da concentração da riqueza financeira no país.
Compreender esse mecanismo — sem confundi-lo com indicação de produtos — é o primeiro passo para estudar, de forma técnica, como o planejamento patrimonial se estrutura em contextos de riqueza concentrada e transmissão entre gerações.